terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Musique – Soundtracks for Pedestrians (2010)
Um excelente exemplo para ilustrar a aura do novo trabalho do Musique é a primeira faixa que compõe o álbum, “Helicopters”. A faixa é um relato quase neurótico sobre um indivíduo que vê helicópteros enquanto anda pela rua. O desespero e o estado mental delicado ficam evidentes no refrão “Helicopters/Flying over you/Bringing all the desperation/That you can’t ever go through” repetido timidamente como se fosse uma súplica por uma solução enquanto o assustado e perturbado ser vaga tentando livrar-se das aeronaves. “Eu queria escrever uma letra diferente, algo mais elaborado e sci-fi”, reforça Musique - que experimentou sutilmente com o uso de uma linguagem mais informal assumidamente influenciada por artistas de Rap e Hip-Hop da velha escola. “Helicopters” será a música de trabalho do “Soundtracks for Pedestrians” e pode inclusive dar origem a um videoclipe produzido por Sandro Mendes.
A segunda faixa, “Faithful” (cujo título de trabalho era “Heart”) possui uma transição (involuntária, segundo Musique) brilhante e conta com os singelos vocais de Marina Reguffe. A faixa possui uma bela mensagem sobre fidelidade a si mesmo, aos próprios princípios e sobre auto-evolução. Para Musique, “Faithful é sobre ser você mesmo e não ceder”, assumir as conseqüências e liberar o potencial enrustido dentro de cada um. Ainda de acordo com o letrista, aparar as arestas (“cutting the rough”) e admitir a necessidade de ajuda não são sinais de fraqueza nem de humilhação, mas sim de manter-se aberto aos elementos da oportunidade como é possível verificar em “Liberate the growth/Open door for growth, ‘cause you’ve got one chance...”. Chama a atenção o uso de uma melodia latina, quase flamenca de violão por sobre a massa de elementos climáticos e cósmicos.
Seguindo a linha das participações, a terceira faixa, “Burden” (título de trabalho: ‘Fournotes’), conta com a ótima participação da vocalista da banda Outdate, Karol S. De todas as letras, “Burden” é, quem sabe, minha favorita. Além da complexidade lírica, a qualidade reflexiva da letra é assustadora. A letra inspirada no filme de 2007, “Into the Wild”, dirigido por Sean Penn, narra uma situação semelhante àquela vivenciada pelo jovem Chris McCandless, um norte-americano de classe média que resolve deixar todo frenesi da civilização para trás e encontra refúgio na natureza selvagem. A trama calcada no livro escrito por Jon Krakauer retoma noções de escapismo e inocência muito bem dispostas na letra da faixa “Burden”. Para Musique, o fardo em “Burden” é o de seguir aceitando todos os preceitos oferecidos pela sociedade e pela dita civilização, “é a utilidade posta à prova, sentir-se útil”. Uma das surpresas na produção desta faixa é a utilização de um sample da banda norte-americana 10 Years em uma das camadas ao fundo da pista. O arranjo original foi trabalhado para que os tons se adaptassem ao arranjo da faixa da Musique, dando um ar de naturalidade completa no contexto.
Ao passo em que falo sobre naturalidade, lembro da citação de Musique em relação ao arranjo de “From the Heart”, quarta faixa do álbum: “A From the Heart reitera que a música é eletrônica, mas feita com muito amor”, com o coração pulsante, elemento constante no trabalho completo. Esta foi uma das letras que Musique diz ter feito em um quarto de hotel em São Paulo, sem ouvir a música, encaixando os fraseados de cabeça. A faixa, de linda melodia e ótimos arranjos, liricamente insiste na idéia de não deixar dúvida quanto ao método artesanal de composição mesmo em meio aos elementos menos orgânicos. Mais uma vez temos os belos vocais de Marina Reguffe em uníssono aos vocais de Musique. “Essa faixa tem algumas coisas interessantes”, conta o produtor. “Ela nasceu enquanto eu mostrava para meu sobrinho como usar o Fruity Loops...” Além disso, uma das camadas foi concebida por conta de uma buzina de caminhão, que soou enquanto ele ouvia a música nos headphones: “O caminhão buzinou na hora e ficou perfeito. Depois foi só tentar compor aquele barulho”, completa.
A penúltima faixa do “Soundtracks for Pedestrians”, Urban Pop, “está um passo a frente de tudo que eu já fiz com o Musique”, cita. Todo o orgulho em relação ao trabalho não é infundado. Além de recuperar a temática inicial e a intenção contextual do disco, “Urban Pop” oferece ao ouvinte mais exigente uma gama gigantesca de timbres orgânicos e fluídos que realmente colocam a faixa acima das outras nesse quesito. Mesmo retomando e recuperando elementos da faixa “Morrigan” (o jogo de palavras ‘motion/emotion’), primeira do disco Reverse, de 2005, esse trabalho é visivelmente um dos que mais agrega elementos das novas influências do Musique onde tudo isso faz parte de um “novo capítulo na minha vida... é uma identificação de tudo que o Musique se tornou”, afirma. “Liricamente, ela é a minha ‘What’s My Name’” e prossegue: “É uma coisa interessante trazer uma auto-identificação num quinto álbum”, novamente assumindo beber na fonte Hip-Hop, mas à maneira Musique.
Para finalizar o álbum temos uma faixa que, de certa maneira, recupera um pouco dos trabalhos do “Sectors”, principalmente por não ter uma grande quantidade de linhas de vocal como as faixas anteriores. “Loneliness”, assim como “Burden”, utiliza elementos de outras bandas. A base de teclado e o dedilhado da faixa compõem um sample retirado de arranjos da banda alemã Darkseed, novamente adaptados ao contexto proposto pelo Musique. “Queria fazer uma faixa climática, sem batidas e foi uma boa escolha para ser a outro.”, adiciona. De acordo com ele, “Loneliness” é sobre achar o equilíbrio, sobre encontrar um sonho maior, algo meio utópico e belo como John Lennon haveria de propor que imaginássemos. “Loneliness” é sobre estar longe dos problemas do cotidiano, longe dos problemas que assolam tanto o indivíduo quanto o coletivo no dia-a-dia.
De maneira geral, o álbum nos remete a uma paisagem urbana complexa e antagonicamente serena. Ao mesmo tempo, “Soundtracks for Pedestrians” oferece uma visão introspectiva e reflexiva, mas nunca descartando a possibilidade de mudança para o completo oposto de tudo. A arte da capa e toda concepção artística do projeto ficaram a cargo do talentoso músico e artista J.F. Costa, vocalista e guitarrista da banda Nitrovoid. Mesmo tendo finalizado o disco recentemente, o Musique não parece estar disposto a dar férias aos processos produtivos. De acordo com o produtor, já existe toda uma nova concepção e novas idéias interessantes para a confecção de um novo álbum. O melhor de tudo é que não sabemos se devemos ou podemos esperar uma continuação do trabalho em “Soundtracks for Pedestrians” ou se esperamos por algo completamente inovador. Afinal, como consta na letra de “Loneliness”, “We need to change the route of our lives”.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Musique - Sectors (2008)
Após um grande período de abstinência pseudo-jornalística musical, o Rio Grande em Bandas volta ao trabalho com disposição para recuperar o tempo perdido e para mostrar tudo que tem acontecido na cena musical da cidade nesse quase um ano de falta de tempo para escrever. A vítima do primeiro post depois de tanto tempo é projeto Musique. A proposta, que já existe faz bastante tempo, flerta com música experimental, eletrônica, trip-hop e ambiente. O quarto trabalho da Musique, Sectors (2008 - Independente), conta com seis faixas bem elaboradas e concisas para a proposta do trabalho, nada que fique estendido além do necessário. A faixa "Southern", primeira do disco, é definitivamente uma excelente escolha para abertura do álbum. Logo no início é possível perceber que não há timidez alguma no trabalho já que "Southern", assim como a terceira faixa, "If", é uma das composições com aparentemente maior quantidade de camadas e densidade. A grande gama de detalhes em "If", como, por exemplo, elementos e timbres que invocam uma sonoridade indiana e uma letra bastante interessante, faz da número três uma das minhas favoritas. Faixas como "Ultra" e "Mayhem" parecem evocar uma essência primordial do som da Musique. Esse sentimento original e primitivo é necessário para o bom fluxo do trabalho e para determinar a sensação de continuidade que dá o tom da obra. Mesmo com a excelente "If", os destaques de Sektors são a própria faixa que batiza o álbum e a bem elaborada "Femme-Fatale". A primeira das duas citadas é uma música com uma ambiência extraordinária. Além da abertura com um clima bastante agradável, as sutilezas de piano ao longo da faixa contrastam de maneira positiva com o contexto aveludado da composição. A segunda das faixas em questão, "Femme-Fatale", é definitivamente a mais interessante de todas. Escutei "Femme-Fatale" pela primeira vez extra-oficialmente, antes do lançamento do disco. Contudo, sem tempo para degustar apropriadamente a canção, não fui capaz de perceber o clima hipnotizante que envolve a música. Os vocais também merecem destaque em "Femme-Fatale", assim como o interlúdio com piano seguido de uma volta sutil e singela ao tema original. O que talvez mais chame atenção no Musique, nunca ignorando o talento e a qualidade dos arranjos, seja a ousadia de criar algo do gênero em Rio Grande. Infelizmente, todo experimentalismo tem sido visto de forma bastante pragmática e com certo ceticismo pelo público e inclusive pelos envolvidos com a cena musical de Rio Grande. Além disso, é incontestável o capricho na produção do trabalho tanto no âmbito fonográfico quando no âmbito gráfico. O Sectors é a prova de que é possível produzir algo valoroso, detalhado, bonito e sonoramente agradável mesmo sem investir centenas de milhares de reais. Todas as faixas do álbum Sectors foram contempladas com clipes confeccionados especialmente para o projeto. Dentre os clipes, o que merece maior destaque é o de “If”, seja pela ótima composição, pela ótima seqüência de imagens, pelo contexto geral ou simbiose entre música e imagem. Para saber um pouco mais sobre Musique, acesse http://www.purevolume.com/musique ou entre em http://www.youtube.com/user/rkcameron para assistir todos os clipes. Espero que curtam tanto quanto eu. Até a próxima!
